O som das buzinas era o meu amanhecer, e o horizonte, quando havia, era feito de concreto e vidro. Minha vida orbitava o universo da tecnologia: sistemas, códigos, algoritmos. Tudo tão preciso, tão instantâneo, e ao mesmo tempo tão distante do pulsar da vida real.
Então veio a pandemia, e o mundo, de súbito, silenciou. Nesse hiato coletivo, decidi seguir um chamado antigo, talvez ancestral: voltei-me para a terra. Fui morar na roça.
Ali, o tempo ganhou outra densidade. O relógio era o sol, e o calendário, o ciclo das chuvas. Aprendi a linguagem dos ventos e a gramática da terra. Criei gado, acompanhei o nascimento, o crescimento, a engorda, o abate. Preparei a carne, cozinhei para meu filho, participei do ciclo completo da existência. Foi uma comunhão simples e profunda, onde a vida e a morte se entrelaçam sem drama, apenas como partes de um mesmo sopro.
Na marcenaria rústica encontrei outra forma de transcendência. Do corte da árvore ao desenho final da peça, cada gesto era um diálogo com a matéria. A madeira, com seus veios e imperfeições, ensinava-me sobre paciência e limite. Há uma sabedoria silenciosa em quem aprende a respeitar o tempo da secagem, o peso da lâmina, o repouso do tronco.
Cavalos, hortas, construções – tudo era feito com as próprias mãos. E nesse fazer manual havia uma espécie de oração. Descobri que o trabalho físico não apenas cansa o corpo: ele apazigua a mente.
Hoje, de volta à cidade, retornei também ao universo digital. Reencontrei o ritmo veloz, as reuniões, as notificações. Mas dentro de mim há um eco, um chamado manso, feito de lembranças: o cheiro de terra molhada, o mugido distante, o silêncio pleno das madrugadas rurais.
Sinto uma saudade que não é ausência, mas presença. Um fio invisível que me liga àquilo que é mais essencial no homem: a relação direta com o que o sustenta.
Se um dia eu voltar (e sei que voltarei) não será para fugir do mundo, mas para reencontrar, ainda que por instantes, o equilíbrio entre a criação e a colheita, entre o código e o barro.
arra da calça, arranca a florzinha, põe no cabelo e sorri, enquanto desfila na terra vermelha, toda faceira e descalça.
Bruno Nucci 🙋🏼♂️
🧱 Texto da série “Quebrando a quarta parede” – dois olhares sobre a vida, por Nina e Bruno Nucci. Em alguma quarta-feira de todo mês, um novo tema.
Dois textos.
Uma única pergunta:
— Em que parte desse nosso cotidiano você reconheceu o seu?
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Gostei muito do seu texto! Parabéns!
" Foi uma comunhão simples e profunda, onde a vida e a morte se entrelaçam sem drama, apenas como partes de um mesmo sopro."
Gosto dessa visão realista, sem fantasias, sem terror, sem drama. A simplicidade dos ciclos.
Eu amo morar na roça.